terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Das Artes

Para quem acompanha minha produção pífia de desenhos/ilustrações*, é notável que venho a algum tempo, ao invés de produzir conteúdo autêntico, tenho estudado as possibilidades do estilo Art-Nouveau, mais restrita ao grande cara do rolê, Alphonse Mucha. Bom, estudado informalmente, vamos lá deixar de ser arrogante: tenho pesquisado obras, no sentido de avaliar e absorver: proporções, coloração, contorno, acabamento, temas. Sem ir muito além na filosofia e na construção em si. E, enfim, o que me leva a escrever essa postagem é exatamente um dos itens avaliados entrando em conflito com algumas práticas e "valores" meus.

Antes de perfurar o asssunto, eu queria só dissecar uma coisa que disse ali em cima, sobre conteúdo autêntico e não-autêntico. Para mim, está muito perceptível a ideia de que tudo que colocamos no papel, seja em forma ou em palavra (ou em melodia), é produto de tudo que absorvemos e vivemos (e ouvimos, e lemos, e vimos, e sentimos, e...), o que torna muito questinável a definição de autenticidade. No entanto, dependendo de como o fazemos, acaba resultando em algo totalmente pessoal e único. Assim como, dependendo de como fazemos, o produto é passado, não traz combinações ou soluções novas e torna-se repetição de algumas outras coisas que ficaram presas na nossa cabecinha. Então, quando me refiro a fazer algo autêntico, mesmo que sejam no final conclusões repetidas, eu quero dizer que faço sem a intenção de copiar ou reproduzir peças já existentes, mas com a intenção de "botar algo pra fora". Engraçado que essa minha conclusão não teve nada a ver com o que eu disse antes no parágrafo, olha a falta de desenvolvimento da ideia.

Voltando ao tópico, inicial, conflitos. Pois bem, vamos olhar uma obra bacanuda do Mucha.

A Loura, por Alphonse Mucha

Essa imagem bem bacana, mostra exatamente o ponto em que quero chegar. Na verdade, mostra um dos pontos. Nos trabalhos de Mucha, e em qualquer produção de Art Nouveau, provavelmente, existe uma preocupação com a geometria. O círculo é bem "circular", os padrões são bem "padronizados", a discrepância entre os pontos é quase inexistente, o que se perde um pouco da "humanidade" no acabamento do desenho. Em alguns trabalhos, percebe-se essa perfeição na execução das formas inclusive nas roupas e nos cabelos.
Sabia que Sarah Bernhardt era uma atriz famosona, dona do  Théâtre de la Renaissance
e ambos estão envolvidos numa história que ninguém confirma, que fala sobre a
ascenção social do Mucha, e um contrato de ilustrações dos cartazes de suas peças e
também outras coisas que eu esqueci e to com preguiça de pegar o livro pra te confirmar?

Ahá! Essa aqui de cima mostra o que quero dizer do cabelo. As curvas dele não são, de forma alguma, feitas ao acaso, mas milimetricamente planejadas, em espirais (se são espirais verdadeiras ou falsas eu não sei, isso o desenho geométrico nunca me ensinou, mas deveria procurar).

Quanto às flores no cabelo e as estrelas ao fundo já apresentam o segundo ponto. Há uma preocupação com a simetria. a obra não é totalmente simétrica, até porque a sensação de movimento e fluidez é constante em suas obras, então alguma coisa costuma cortar ou os quadrantes ou o equilíbrio. Nesse caso, são as mechas de cabelo à direita, que carregam o canto inferior direito em relação ao canto inferior esquerdo e serve de campo de transição entre os quadrantes superiores e intermediários que detém as principais informações da imagem e o bendito canto inferior esquerdo, que está praticamente vazio fora a cor de fundo e elementos diminutos.

Mas é, simetria. O rosto é completamente equilibrado, junto das flores e do arco, há uma simetria bilateral (fora os quadrantes inferiores que já comentei), mesmo que as letras não se repitam, o texto mantém a distância, o tamanho e terminam e começam na mesma altura. O bordado das vestes de Sarah trazem mandalas com temas florais, com simetria radial. as estrelas também são simétricas, não há variação de tamanho entre as pontas e mais, as estrelas são proporcionais (ok, eu não medi, mas são aparentemente proporcionais!).

Geralmente, os arcos que Mucha faz, e as flores e padrões florais, costumam ser simétricos, são feitos com exatidão e, quando não realmente simétricos, eles equilibram a imagem em relação a outro elemento.

Aqui de novo o arco e arranjos de fundo de imagem apresentam simetria. E inclusive o cabelo e o arranjo dele.
De novo a gente confere o círculo atrás, e padrões  florais (circulares). Simetria na decoração da roupa.


O que quero destacar com esse texto e essas imagens é o que eu digo que é "desumanizado". E quando falo que algo é humano, quero dizer que é livre, tosco e imperfeito. Então, quando falo que as obras de Mucha são desumanizadas, é porque seu trabalho parece contar com o auxílio de réguas, compassos e esses instrumentos que fazem as coisas sairem perfeitinhas que existem antes do computador. Hoje, quando falamos de arte digital, a gente nem precisa sofrer muito com isso, e, aliás, é bem mais difícil encontrarmos círculos tortos e linhas mal desenhadas quando procuram fazer padrões gráficos, elementos circulares grandes e coisas assim.


O conflito surge por eu ter ouvido da mamis que "não é para usar régua ou compasso, faça a mão livre e treine" e ter absorvido isso com intensidade impressionante. Réguas são para loosers, Bauhaus que me perdoe, arquitetura que me perdoe, Mondrian que me perdoe, engenharia que me perdoe. Mas a graça de fazer um trabalho manual está exatamente em poder ser livre, em apresentar formas imperfeitas, ligeira ou totalmente. São nesses pedaços que a gente encontra os vícios da nossa mão, as singularidades do nosso traço. Tá certo, uma galera deve ter feito tanto círculo que deve conseguir fazer um imperceptivelmente imperfeito, mas duvido um pouco que seja um circulo idêntico ao feito com um compasso ou no computador.
Soldier Stare. Por Eu, Julia Kaffka

Essa imagem aqui de cima, que não sou eu tentando fazer um barato Art Nouvau, tá cheio de tortices. Olha esses círculos, que capengas. Aquela espiral no canto, socorro. O foguinho azul, logo atrás, totalmente bagunçado. O desencontro das curvas do barato abstrato verde com o roxinho. mas a graça tá aí. Se eu fizesse de novo essa imagem, faria diferente em mil aspectos, mas eu consigo ver um processo ali que seja único da minha mão, que não tenha interferências artificiais de ferramentas. Eu tomei gosto por essa coisa torta. Daí, eu vou lá e faço isso:
Primavera. E eu não fiz as outras estações.
Então tá, nem um retângulo eu consigo fazer. Tira toda a graça do desenho. O detalhe da moldura não tá nem centralizado direito. Comparando com a arte de Mucha, ou de qualquer pessoa mais dedicada e habilidosa que eu na internet, fica parecendo mal acabado. Sem querer mencionar que faço isso com lápis de cor e tem hora que meu pulso cansa, meu tendão dói e eu sofro, (Tudo culpa de um verão com mouse e uma tentativa de coloração digital de um desenho detalhado) pra não dizer que faço miséria com lápis de cor (porque tem gente que manda muito melhor com esses materiais que eu. Eu sou newbie e não tenho medo de admitir. E não quero confete não, se alguém quiser, pede nos comentários que eu mostro os horrores que vi de gente fazer com lápis de cor).

Esse aqui, Estellar que antes se chamava Virginity,
 tem uma história legal, sofreu várias edições no computador
porque a coloração ficou bizarra. e o pé tinha ficado desproporcional.

E agora, mais uma coisa, a falta de simetria. Olha os padrões no arco, pra começar, nenhum dos miniarcos que dão para a parte interna da imagem estão proporcionais. O formato do arco eu achei legal, mas não tem nada de Art Nouveau. Combina mais com Art Deco, que não tem nada a ver com Art Nouveau (vai jogar Bioshock que você descobre o que é Art Deco) e ainda assim está impreciso. Nem o contorno tem o mesmo tamanho ao redor da imagem.

Meu peixe (coraçãozinho). (Vanity, the big fish).
Acho que acabei usando um compasso pra fazer o  círculo que dá pro oceano, mas pro resto nada.
No peixinho, eu tinha olhado mais pras obras do Mucha porque fiquei frustrada com o anterior. Dá pra perceber uma evolução e, claro, a imagem tá longe de ser puramente Art Nouveau, a carpa que tem rabo e nadadeira de peixe beta depois da treta mostra influência de cultura tradicional japonesa (tem coisa mais linda que aquelas carpas manchadas e as garças e as flores nos kimonos e nas gravuras?) e de cultura popular japonesa (pokémon, ou isso não lembra nenhum pouco um goldeen com magikarp com gyarados). E as cores, muito mais brilhantes que as aquarelas do Mucha (ou meus outros dois desenhos). Aliás, fiquei feliz que esse daí ficou tão brilhante (o retoque que fiz foi porque meu scanner zoa com as cores, mas ficou colado com as cores do papel, nos monitores que testei). Nos cabelos da mulher, dá pra ver uma tentativa (mão livre ainda) de fazer o cabelo mais com cara de cabelos de Mucha ao vento (à água?). E as flores, que peguei um modelo de uma obra dele mesmo, também estão a mão livre e os ângulos entre cada arco não são congruentes, nem nada.

O Pavão, olha só a diferença dele pro primeiro. E aqui eu usei sim compasso, que sem vergonha. Mas ainda tem outras coisas feitas a mão livre.


Ontem, passado vestibular e agora só esperando os resultados e tendo pesadelos sobre isso e angústia e cansaço, filnalmente voltei a desenhar. No último dia de prova da fuvest, a.k.a. sexta feira dia 10 de janeiro, última prova de habilidades da FAU, dei um pulinho numa loja de materiais artísticos (não to falando de papelaria capenga, to falando de lugar bacanudo que o bolso sofre mas tem as marcas que eu quero) e comprei mais quatro cores da Caran D'Ache. Antes, ainda, tinha comprado novos papéis para desenho (um bloco novo), lápis 6B e caneta à prova d'água ponta fina.
Fazer o quê, gosto de material macio, não consigo desenhar com HB, acho um sacrilégio e força meu tendão que dá vontade de chorar. Até pra escrever uso lapiseira 2B.
Pois bem, tinha voltado a desenhar e resolvi fazer dar continuidade à série que estou fazendo dos zodíaco.

Não dá pra falar bem que o negócio é muito padronizado. Tenho essa vontade de seguir com o Art Nouveau, porque as soluções dele combinam com o meu gosto por desenhos com contorno, mas alguns desenhos tem fundo, outros não, cada um tem um formato diferente. Em compensação, tem sempre uma mulher, gosto de colocar algum bicho e algum elemento do reino Plantae, ou que lembre isso. Por exemplo, meu Áries, que foi presente pra mamis, eu resolvi fazer em tributo a Klimt, mas tem o barato dos oito sóis que tem cara de pós-impressionismo do Van Gogh e uns baratos art-nouvouvianos que eu peguei o hábito de fazer.

No ano passado eu já tinha tentado fazer a ilustração para o signo de câncer, aliás, acho que foi até no começo ou no meio do ano, e tinha me decidido por fazer uma moça deitada numa concha com uma roupa de tecidos leves (que nem as outras) e carregada em jóias (como é visível no trabalho de Mucha), que apresentassem desenho similar ao exoesqueleto de um caranguejo e algumas flores. Inclusive porque queria sair desse meu padrão de desenhar pessoas na vertical em posição tensa, inclusive (como eu sofro pra fazer descanso). Entretanto, ontem quando rabiscava no caderno pra ter alguma ideia, fiz um busto que tinha ficado tão legal e resolvi tentar. Não vou dar spoilers, vocês vão ver quando ficar pronto e eu não vou avisar quando postar no flickr. Enfim, caí de novo no barato do círculo. E ontem tentei, tentei e tentei fazer um círculo à mão livre, mas cedi ao compasso.

Artilharia pesada. Se as imagens pequenas mesmo clicadas te incomodam, vai no flickr que tem tamanhos maiores.
E olha só, círculos quase decentes sem uso de compasso.
E linhas tortas, muito tortas.
Nesse caso, como a intenção era fazer algo bizarro, combinou muito.


Pode até parecer não haver conflito por eu ceder ao compasso, mas é quase ideológico. Eu não me sinto feliz por usar a porcaria do compasso e agora até penso em subverter a forma que consegui com ele por essa posição "política".

Eu tinha colocado nos marcadores "moda" e depois tirei, porque queria falar de alguns outros artistas que eu acabo misturando com isso de Art Nouveau e me inspiram pra caramba, mas achei que o post já tava gigante o suficiente. Mas como eu lembrei o estilista que estava pensando, acho que posso falar um pouquinho dele. Não dele propriamente dito, mas dele a ver com o tema da postagem que sou eu desenhando haha.

Pois bem, se a gente pegar de novo os trabalhos do Mucha e dar uma olhada na vestimenta e daí comparar com as roupas que, er, bem, eu desenho, dá pra ver que uma coisa que eu não manho é de dobras e representação de tecidos. Principalmente de desenhar roupas inusitadas ou com essa pegada de roupas gregas e romanas.

Um dia estava por aí e nem me lembro como mas me deparei com alguma roupa de Zuhair Murad. Creio que foi algo a ver com tapetes vermelhos e artistas usando, e as rendas e tecidos me encantaram... muito.





No caso, o que me chamou a atenção foi a maneira como ele relaciona o corpo com a roupa, ela não cobre o corpo, mas o adorna. Literalmente isso, diferente de uma camiseta, mesmo uma camiseta bonitinha, ou que traga um decote. Nas roupas, há uma conversa entre o tecido e a pele, como cor, textura, forma.

E a forma como ele faz a sobreposição de tecidos e os padrões florais são um belo estudo para mesclar exatamente com os modelos que Mucha desenha. Sim, as ideias são bem diferentes, até porque as roupas que eu peguei pra olhar de Murad são modelos de gala, noturnos e tem uma pegada de glamour e não de natureza.



Outra artista  que eu amo é Vivienne Westwood.


Esse aqui foi do último desfile que teve, SEMELE WALK. Ou é o que diz no meu facebook.

Poxa, nem tenho muito o quez falar delas, senão falar de como eu sofro pra ter ideias de roupas e para fazer os drapeados e curvas e texturas. Mas daí o trabalho dela combina mais com as ideias bizarras e cyberpunks que eu tenho.

E foi por isso que eu tirei o marcador moda, porque eu não tenho muito o que falar.

Além de drapeados e amassados e rendas, outra coisa que tenho muita dificuldade para fazer são pelos. Podem ser pompons, animais, cabelos. Pelos e penas, não consigo dar a leveza ou o peso deles, minha textura falha miseravelmente. E existem muitos tutoriais por aí, mas eu nunca chego onde quero. O ideal seria eu mesma desenvolver minha maneira de representá-los, mas enquanto isso, vou só mimetizando o que os outros tem a me ensinar...

Por bamuth no deviantArt

Por Kxhara no deviantArt

por moni158 também no deviantArt

E por NaRai , adivinha aonde, no deviantArt.com


Ah, sabia que Mucha também desenhou jóias e utensilhos, como abajures? as peças seguem exatamente a mesma linha de suas pinturas, trazem temas naturais, detalhadas, simétricas. O que dizer, o cara manjava das coisas.

Colocando um monte de imagens pra compensar o monte de texto. Ah, são designs do Mucha esses daqui.

E aqui uma jóia pronta, desenhada por Mucha.


 Acho que falei o que queria e inclusive o que não queria, o que deixa essa postagem com qualidade duvidosa. Espero que vocês gostem, eu espero por comentários.

Até uma outra vez.

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*nome chique para desenhos bem acabados. Porque supostamente ilustrações são desenhos com funções, ou que tenham um contexto por trás, uma peça publicitária é uma ilustração, um rabisco de canto de página com legenda pode ser uma ilustração, um desenho numa folha sem significado ou contexto, talvez não seja uma ilustração. Ah! Dificuldades em entender esses conceitos.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ambiguidades da vida privada e o mundo moderno

A estrutura atual da sociedade dá-se pela divisão do espaço de convivência com conhecidos e, ao mesmo tempo, desconhecidos. Associa pessoas que, potencialmente, nunca se viram em grandes templos comunitários (shoppings, parques, igrejas, cinemas, ...) mantendo um distanciamento entre as mesmas por meio da padronização do comportamento e o julgamento estético das pessoas ao redor àqueles cuja postura fuja das expectativas específicas de cada ambiente.

Criam-se, então, símbolos que expressem tais ideias mais facilmente, símbolos que mesmo com menor intensidade que uma sala de espera num consultório médico ainda infringem a intimidade e peculiaridades dos grupos e deixam de traduzir a realidade em prol de um bem estar geral.

Um adulto que acompanha uma criança num shopping, por exemplo, é visto com certo respeito e ternura por, aparentemente dedicar-se à família, até que a criança comece a chorar grosseiramente e o adulto levantar-lhe o tom de voz em castigo ou repressão. Também por não conhecer os precedentes da cena, há quem veja o responsável como pessoa cruel, dado que a criança é símbolo de vulnerabilidade e inocência, elemento que, nesse caso, se sobrepõe à ideia de guardião sobre o adulto.

É notável a necessidade de suavizar manifestações emocionais para reduzir riscos de ofensas ou constrangimento de possível expectadores e dos próprios envolvidos, como um casal a beijar-se lascivamente, postura invariavelmente condenada por religiosos mais conservadores. No entanto, ao que muito se exige a redução da intensidade, pouco se estimula a evitar o julgamento infundado, permitindo-se enraizar estes símbolos que preenchem as interpretações por muito equivocadas e, ao invés de reduzir o afastamento entre desconhecidos, reforça o caráter frio e impessoal da sociedade, cada vez incomodando-se menos com a marginalização dos signos perante as verdadeiras situações da realidade.

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Céus, que carta empoeiradamente séria para o conteúdo desta página. De fato, um texto curto, uma vez que era uma redação com máximo de 30 linhas com um tema antigo da FUVEST. A publicação dele deu-se pelo meu orgulho ter inflado ao receber minha nota. Eu sei, eu sei, deveria ter apresentado aos marujos o tema adequadamente, mas eu perdi a folhinha (pouxa) e não saberia transcrever os textos. Ah, certamente, a preguiça de caçá-lo pela internet é pungente.

Eu tenho vontade de alongar o tema numa postagem para a Caixinha, mas a hora é devidamente inadequada.

Não que o tema seja muito agradável ou interessante, e definitivamente, não que qualquer postagem seja agradável ou interessante, mas veja só, atualizei duas vezes em pouco tempo! Aproveitem e até a próxima, peixinhos.


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Obs: gostaram da nova cara da Caixinha? Agora tem realmente cara de caixinha, né. Melhor que as outras decorações e principalmente melhor que a última decoração azul e preta, com cara de cyberpunk. (não que não goste de cyberpunk, pelo contrário mil vezes eu adoro, mas que a ideia da caixinha sempre foi ter cara de caixinha de música, daquelas velhas, de madeira, com uma bailarina no centro e diminutas gavetinhas para guardar suas preciosas lembranças)

sábado, 15 de setembro de 2012

O melhor brigadeiro do mundo.

 Boa tarde tripulantes.

Variavelmente chega aos meus ouvidos alguma mocinha a gabar-se de seus dotes culinários, cantando que faz o melhor brigadeiro do mundo, provavelmente muito certa de que não haverá uma competição de brigadeireiros pela cidade tão cedo. Ou deveras confiante caso isso acontecesse. Bom, não nego estar incluída nesse grupo de pessoas.

 Eu, outrora cozinheira forte de brigadeiros, cozinhava-os quase sempre para comer às colheradas em casa, junto dos abutres (que não são abutres e tanto amo e respeito, de verdade, não me batam, quis ser só engraçada) no meio da tarde, uma vez por semana senão mais, havia criado certa habilidade e não me prendia mais a medidas, já sabia qual marca de cada coisa favorecia mais ao sabor brigadeirístico da coisa, e nenhum familiar se ocupava a competir ou negar, devido que o trabalho de fazer o brigadeiro estava, portanto, sendo todo meu — e de fato, todos ficavam satisfeitos com o resultado da minha cozinhação. Infelizmente, isso já faz alguns anos e sem fazer muitos brigadeiros, fui perdendo a mão e assim o hábito de falar que o meu brigadeiro era o melhor do mundo. Em compensação, alguns critérios permanecem no meu incosciente e lembro muito de leve o que eu fazia.

De qualquer forma, hoje, a preparar o assunto, me peguei cozinhando este post na cabeça

Quando jogam uma frase tão forte, e com tanta certeza, ninguém há de criar polêmica e todos os presentes então afirmam querer comer tal manjar dos deuses. A não ser que haja outra criatura tão nariguda e quanto a primeira locutora.


Fica falando do seu brigadeiro, quem mente nariz cresce sem vergonha.

E não é que tal acaso deu-se uma vez? Bom, se eu estava numa conversa, não tinha como não ter outra menina nariguda que esnoba seus dotes aos outros presentes. E a conversa deu-se entre Cremilda e eu, principalmente, além de algumas outras envolvidas, menos mentirosas quanto nós ((risinhos)). Não me lembro ao certo se alguém havia soltado a frase mesmo ou e começamos a discutir brigadeiros pelas nossas preferências, o importante é que foi marcado um duelo ((uma desculpa para comer brigadeiro *2 *)), na minha própria casa, e provavelmente assistimos alguns filmens no dia.

Sua receita era bastante diferente da minha, incluía leite, menos chocolate e menos gordura (em seu caso, margarina, no meu manteiga). Dizia ela que o leite deixava o brigadeiro masis suave e mais macio, e que evitava ao menos um pouco que formassem aquelas bolinhas de chocolate queimado que eram horríveis -sacrilégio-. Ah, pode muito bem ter começado assim a gran discussão.

O resultado da conversa, eu não lembro, já que esse post ficou aqui jogado nos meus rascunhos e pode ter se apodrecido no fundo da geladeira (tanto tempo até que já mudei o layout, as cores, minha foto, algumas vezes e esse post ainda estava embalado num pedaço de papel alumínio). Mas, se bem me lembro, o interesse era colocar aqui algumas receitas de brigadeiro, porque, bem, qual a graça de falar de brigadeiro sem comer brigadeiro?

De uma forma ou de outra, após esse suposto duelo uma coisa ficou clara para mim. Talvez, sim, cada brigadeiro fosse o melhor do mundo para cada pessoa que o fizesse - mas definitivamente estaria longe do posto de brigadeiro supremo (este, sempre seria meu, dã. - mentira); as receitas, como quaisquer outras, variam, e variam tanto que algumas estão longe de se parecer com outras, tem quem o faça para ficar mais grudendo e chocolatoso (eu! eu!), quem o faça para ficar o menos doce possível, quem enfie ingredientes que não tenha nada a ver com a receita original e criam novas receitas gostosas - ou outras que me deixam indignada de tão absurda a besteira que a pessoa fez. Como enfiar leite em pó no leite condensado com manteiga e ACHAR que fez "brigadeiro branco"; ah, ah, pobres mortais que não sabem da vida. Só os mestres da doceria sabem que brigadeiro branco leva chocolate branco e não aquelas porcarias de Ninho em Pó ou qualquer outra marca de poeira branca que você conheça - ou ainda creme de leite - mas que absurdo alguém enfiar creme de leite em brigadeiro, tá desperdiçando um baita ingrediente, sai daqui pessoa louca.

Pra fazer brigadeiro branco que se preze precisa disso aqui, beibe.
Como eu mesma não lembro os detalhes picantes da minha receita tradicionalíssima de brigadeiro, a receita de brigadeiro branco eu guardo com o maior carinho e acho que tá na hora de partilhar com vocês. Pelos lugares em que vivi, sempre fui acompanhada por uma doce cartilha, uma cartilha de receitas da Lacta, chamada "O Mundo Maravilhoso do Chocolate 3", e essa cartilha me trouxe grandes valores morais que - não mentira, tem um bando de receita boa, mas a que mais aproveitei foi essa gororoba que eu chamo de "O Verdadeiro e Milagroso e Insubstituível Brigadeiro Branco Brigadeiríssimo Brigadal". Vamos simbora, que ninguém aguenta mais enrolação.

Ingredientes:
 1 Lata de Leite Condensado
 1 colher de sobremesa de manteiga (eu te dou um tiro se trocar isso por margarina ou azeite)
 1/2 xícara de chá de leite (líquido, não em pó. e nesse caso o leite é legal porque tende a ser mais enjoativo, mais doce)
1/2 tablete de l*** chocolate branco (100g) picado
 1/2 tablete de l*** chocolate branco (100g) ralado (se eu fosse você, deixaria o chocolate ralado na geladeira enquanto prepara a massa para ele não derreter)

Preparo:
Derreter a manteiga, adicionar o leite condensado (sempre misturando) e o chocolate branco picado. Mexer até que a massa comece a se desprender do fundo da panela (cerca de 10 minutos).
Retirar do fogo, bater com uma espátula para esfriar um pouco e acrescentar o chocolate branco picado ainda quente (a ideia é que o chocolate derreta, né, então não pode deixar totalmente frio ou morno), mexendo até obter uma massa homogênea e lisa.
Modelar os docinhos e passá-los no chocolate ralado e acomodá-los em formas de papel ou serví-lo num refratário de louça, vidro ou metal e despejar o chocolate ralado por cima para comer com colher.

Rendimento: 40 docinhos.


Extra: (dicas quem acompanhavam a receita)
 - Para que fique macio, retire a massa do fogo em ponto em consistência de brigadeiro mole
 - Não prepare o brigadeiro com mais de dois dias de antecedência da hora de servir, para ter certeza que ainda estão macios (e que brigadeiro sobrevive dois dias?)
- Invente recheios para criar novos sabores; passas ao rum, cereja marasquino (sacrilégio), pedacinhos de frutas cristalizadas ou nozes ou ainda outras castanhas.
 - Um recheio que toma mais tempo: picar 1/2 tablete de chocolate branco e derreter em banho maria. Tirar do fogo, juntar três colheres de sopa de creme de leite e misturar direitinho. Daí é só abrir a massa, colocar uma colherinha de café desse creme e fechar, enrolar e decorar, e etc.

Extra 2 (dicas minhas)
 - Se for rechear, não use nada muito doce, apele pra sabores cítricos, amargos ou neutros. Castanhas são uma boa
 - Frutas de verdade, vermelhas (não cereja marasquino, sai dessa vida de drogas), combinam e muito. Nada açucarado, cristalizado, em conserva. Frutas secas, sim. Damasco é uma boa
 - Faça uma panela de brigadeiro a sua escolha e coloque no mesmo refratário ou embole um brigadeiro meio-a-meio.
 - Enfeite com confeitos metálicos, são doces memórias de infância.



Fazendo propaganda desse por ter feito da concorrente. E não, gente, Cacau Show não é chocolate.




De um tempo pra cá, São Paulo foi ficando cheia de docerias novamente, mas não qualquer tipo de doceria; docerias especializadas em determinadas sobremesas, tal como cupcakes, bolos de chocolate com massa de suspiro, ou o próprio brigadeiro. Alguém aqui já se deparou com uma loja muito cheia de frescuras? Pois é, eu já, e era uma brigaderia.




Não levei muita fé. Tinha cara de lugar com preço abusivo e chocolates não tão gostosos. Erro meu; o preço, pelo menos, não se aproximou do preço de cupcakes mesmo que não fosse algo que valesse tanto a pena. O segundo erro, então, fora desdenhar o produto. Sim, é gostoso, vale a pena provar. Olha só, eu aprovo até o brigadeiro branco de lá. Fora outros sabores muito interessantes que valem ser vistos.
O site da loja, em compensação, fica a desejar. É muito pesado, cheio de imagens, animações, enfim, enfim, deveriam deixar o site mais limpo e com as informações mais visíveis. Vejam vocês, leitores imaginários, achei os sabores mas nenhuma especificação sobre os produtos.





A última observação antes do navio zarpar: usem ovomaltine para fazer brigadeiro, não sejam econômicos quanto a marca dos produtos, faz toda a diferença.


Até a próxima marujos, tentarei desafogar algumas outras postagens empacadas outra hora, se estas já não tiverem perdido o sentido.

* esse *2, caso alguém por um acaso não saiba, significa aqui "multiplicado por dois" e não "ler segunta nota de canto de página", só para ter certeza ((risos)).