Para quem acompanha minha produção pífia de desenhos/ilustrações*, é notável que venho a algum tempo, ao invés de produzir conteúdo autêntico, tenho estudado as possibilidades do estilo Art-Nouveau, mais restrita ao grande cara do rolê, Alphonse Mucha. Bom, estudado informalmente, vamos lá deixar de ser arrogante: tenho pesquisado obras, no sentido de avaliar e absorver: proporções, coloração, contorno, acabamento, temas. Sem ir muito além na filosofia e na construção em si. E, enfim, o que me leva a escrever essa postagem é exatamente um dos itens avaliados entrando em conflito com algumas práticas e "valores" meus.
Antes de perfurar o asssunto, eu queria só dissecar uma coisa que disse ali em cima, sobre conteúdo autêntico e não-autêntico. Para mim, está muito perceptível a ideia de que tudo que colocamos no papel, seja em forma ou em palavra (ou em melodia), é produto de tudo que absorvemos e vivemos (e ouvimos, e lemos, e vimos, e sentimos, e...), o que torna muito questinável a definição de autenticidade. No entanto, dependendo de como o fazemos, acaba resultando em algo totalmente pessoal e único. Assim como, dependendo de como fazemos, o produto é passado, não traz combinações ou soluções novas e torna-se repetição de algumas outras coisas que ficaram presas na nossa cabecinha. Então, quando me refiro a fazer algo autêntico, mesmo que sejam no final conclusões repetidas, eu quero dizer que faço sem a intenção de copiar ou reproduzir peças já existentes, mas com a intenção de "botar algo pra fora". Engraçado que essa minha conclusão não teve nada a ver com o que eu disse antes no parágrafo, olha a falta de desenvolvimento da ideia.
Voltando ao tópico, inicial, conflitos. Pois bem, vamos olhar uma obra bacanuda do Mucha.
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| A Loura, por Alphonse Mucha |
Essa imagem bem bacana, mostra exatamente o ponto em que quero chegar. Na verdade, mostra um dos pontos. Nos trabalhos de Mucha, e em qualquer produção de Art Nouveau, provavelmente, existe uma preocupação com a geometria. O círculo é bem "circular", os padrões são bem "padronizados", a discrepância entre os pontos é quase inexistente, o que se perde um pouco da "humanidade" no acabamento do desenho. Em alguns trabalhos, percebe-se essa perfeição na execução das formas inclusive nas roupas e nos cabelos.
Ahá! Essa aqui de cima mostra o que quero dizer do cabelo. As curvas dele não são, de forma alguma, feitas ao acaso, mas milimetricamente planejadas, em espirais (se são espirais verdadeiras ou falsas eu não sei, isso o desenho geométrico nunca me ensinou, mas deveria procurar).
Quanto às flores no cabelo e as estrelas ao fundo já apresentam o segundo ponto. Há uma preocupação com a simetria. a obra não é totalmente simétrica, até porque a sensação de movimento e fluidez é constante em suas obras, então alguma coisa costuma cortar ou os quadrantes ou o equilíbrio. Nesse caso, são as mechas de cabelo à direita, que carregam o canto inferior direito em relação ao canto inferior esquerdo e serve de campo de transição entre os quadrantes superiores e intermediários que detém as principais informações da imagem e o bendito canto inferior esquerdo, que está praticamente vazio fora a cor de fundo e elementos diminutos.
Mas é, simetria. O rosto é completamente equilibrado, junto das flores e do arco, há uma simetria bilateral (fora os quadrantes inferiores que já comentei), mesmo que as letras não se repitam, o texto mantém a distância, o tamanho e terminam e começam na mesma altura. O bordado das vestes de Sarah trazem mandalas com temas florais, com simetria radial. as estrelas também são simétricas, não há variação de tamanho entre as pontas e mais, as estrelas são proporcionais (ok, eu não medi, mas são aparentemente proporcionais!).
Geralmente, os arcos que Mucha faz, e as flores e padrões florais, costumam ser simétricos, são feitos com exatidão e, quando não realmente simétricos, eles equilibram a imagem em relação a outro elemento.
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| Aqui de novo o arco e arranjos de fundo de imagem apresentam simetria. E inclusive o cabelo e o arranjo dele. |
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| De novo a gente confere o círculo atrás, e padrões florais (circulares). Simetria na decoração da roupa. |
O que quero destacar com esse texto e essas imagens é o que eu digo que é "desumanizado". E quando falo que algo é humano, quero dizer que é livre, tosco e imperfeito. Então, quando falo que as obras de Mucha são desumanizadas, é porque seu trabalho parece contar com o auxílio de réguas, compassos e esses instrumentos que fazem as coisas sairem perfeitinhas que existem antes do computador. Hoje, quando falamos de arte digital, a gente nem precisa sofrer muito com isso, e, aliás, é bem mais difícil encontrarmos círculos tortos e linhas mal desenhadas quando procuram fazer padrões gráficos, elementos circulares grandes e coisas assim.
O conflito surge por eu ter ouvido da mamis que "não é para usar régua ou compasso, faça a mão livre e treine" e ter absorvido isso com intensidade impressionante. Réguas são para loosers, Bauhaus que me perdoe, arquitetura que me perdoe, Mondrian que me perdoe, engenharia que me perdoe. Mas a graça de fazer um trabalho manual está exatamente em poder ser livre, em apresentar formas imperfeitas, ligeira ou totalmente. São nesses pedaços que a gente encontra os vícios da nossa mão, as singularidades do nosso traço. Tá certo, uma galera deve ter feito tanto círculo que deve conseguir fazer um imperceptivelmente imperfeito, mas duvido um pouco que seja um circulo idêntico ao feito com um compasso ou no computador.
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| Soldier Stare. Por Eu, Julia Kaffka |
Essa imagem aqui de cima, que não sou eu tentando fazer um barato Art Nouvau, tá cheio de tortices. Olha esses círculos, que capengas. Aquela espiral no canto, socorro. O foguinho azul, logo atrás, totalmente bagunçado. O desencontro das curvas do barato abstrato verde com o roxinho. mas a graça tá aí. Se eu fizesse de novo essa imagem, faria diferente em mil aspectos, mas eu consigo ver um processo ali que seja único da minha mão, que não tenha interferências artificiais de ferramentas. Eu tomei gosto por essa coisa torta. Daí, eu vou lá e faço isso:
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| Primavera. E eu não fiz as outras estações. |
Então tá, nem um retângulo eu consigo fazer. Tira toda a graça do desenho. O detalhe da moldura não tá nem centralizado direito. Comparando com a arte de Mucha, ou de qualquer pessoa mais dedicada e habilidosa que eu na internet, fica parecendo mal acabado. Sem querer mencionar que faço isso com lápis de cor e tem hora que meu pulso cansa, meu tendão dói e eu sofro, (Tudo culpa de um verão com mouse e uma tentativa de coloração digital de um desenho detalhado) pra não dizer que faço miséria com lápis de cor (porque tem gente que manda muito melhor com esses materiais que eu. Eu sou newbie e não tenho medo de admitir. E não quero confete não, se alguém quiser, pede nos comentários que eu mostro os horrores que vi de gente fazer com lápis de cor).
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| Esse aqui, Estellar que antes se chamava Virginity, tem uma história legal, sofreu várias edições no computador porque a coloração ficou bizarra. e o pé tinha ficado desproporcional. |
E agora, mais uma coisa, a falta de simetria. Olha os padrões no arco, pra começar, nenhum dos miniarcos que dão para a parte interna da imagem estão proporcionais. O formato do arco eu achei legal, mas não tem nada de Art Nouveau. Combina mais com Art Deco, que não tem nada a ver com Art Nouveau (vai jogar Bioshock que você descobre o que é Art Deco) e ainda assim está impreciso. Nem o contorno tem o mesmo tamanho ao redor da imagem.
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| Meu peixe (coraçãozinho). (Vanity, the big fish). Acho que acabei usando um compasso pra fazer o círculo que dá pro oceano, mas pro resto nada. |
No peixinho, eu tinha olhado mais pras obras do Mucha porque fiquei frustrada com o anterior. Dá pra perceber uma evolução e, claro, a imagem tá longe de ser puramente Art Nouveau, a carpa que tem rabo e nadadeira de peixe beta depois da treta mostra influência de cultura tradicional japonesa (tem coisa mais linda que aquelas carpas manchadas e as garças e as flores nos kimonos e nas gravuras?) e de cultura popular japonesa (pokémon, ou isso não lembra nenhum pouco um goldeen com magikarp com gyarados). E as cores, muito mais brilhantes que as aquarelas do Mucha (ou meus outros dois desenhos). Aliás, fiquei feliz que esse daí ficou tão brilhante (o retoque que fiz foi porque meu scanner zoa com as cores, mas ficou colado com as cores do papel, nos monitores que testei). Nos cabelos da mulher, dá pra ver uma tentativa (mão livre ainda) de fazer o cabelo mais com cara de cabelos de Mucha ao vento (à água?). E as flores, que peguei um modelo de uma obra dele mesmo, também estão a mão livre e os ângulos entre cada arco não são congruentes, nem nada.
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| O Pavão, olha só a diferença dele pro primeiro. E aqui eu usei sim compasso, que sem vergonha. Mas ainda tem outras coisas feitas a mão livre. |
Ontem, passado vestibular e agora só esperando os resultados e tendo pesadelos sobre isso e angústia e cansaço, filnalmente voltei a desenhar. No último dia de prova da fuvest, a.k.a. sexta feira dia 10 de janeiro, última prova de habilidades da FAU, dei um pulinho numa loja de materiais artísticos (não to falando de papelaria capenga, to falando de lugar bacanudo que o bolso sofre mas tem as marcas que eu quero) e comprei mais quatro cores da Caran D'Ache. Antes, ainda, tinha comprado novos papéis para desenho (um bloco novo), lápis 6B e caneta à prova d'água ponta fina.
Fazer o quê, gosto de material macio, não consigo desenhar com HB, acho um sacrilégio e força meu tendão que dá vontade de chorar. Até pra escrever uso lapiseira 2B.
Pois bem, tinha voltado a desenhar e resolvi fazer dar continuidade à série que estou fazendo dos zodíaco.
Não dá pra falar bem que o negócio é muito padronizado. Tenho essa vontade de seguir com o Art Nouveau, porque as soluções dele combinam com o meu gosto por desenhos com contorno, mas alguns desenhos tem fundo, outros não, cada um tem um formato diferente. Em compensação, tem sempre uma mulher, gosto de colocar algum bicho e algum elemento do reino Plantae, ou que lembre isso. Por exemplo, meu Áries, que foi presente pra mamis, eu resolvi fazer em tributo a Klimt, mas tem o barato dos oito sóis que tem cara de pós-impressionismo do Van Gogh e uns baratos art-nouvouvianos que eu peguei o hábito de fazer.
No ano passado eu já tinha tentado fazer a ilustração para o signo de câncer, aliás, acho que foi até no começo ou no meio do ano, e tinha me decidido por fazer uma moça deitada numa concha com uma roupa de tecidos leves (que nem as outras) e carregada em jóias (como é visível no trabalho de Mucha), que apresentassem desenho similar ao exoesqueleto de um caranguejo e algumas flores. Inclusive porque queria sair desse meu padrão de desenhar pessoas na vertical em posição tensa, inclusive (como eu sofro pra fazer descanso). Entretanto, ontem quando rabiscava no caderno pra ter alguma ideia, fiz um busto que tinha ficado tão legal e resolvi tentar. Não vou dar spoilers, vocês vão ver quando ficar pronto e eu não vou avisar quando postar no flickr. Enfim, caí de novo no barato do círculo. E ontem tentei, tentei e tentei fazer um círculo à mão livre, mas cedi ao compasso.
Pode até parecer não haver conflito por eu ceder ao compasso, mas é quase ideológico. Eu não me sinto feliz por usar a porcaria do compasso e agora até penso em subverter a forma que consegui com ele por essa posição "política".
Eu tinha colocado nos marcadores "moda" e depois tirei, porque queria falar de alguns outros artistas que eu acabo misturando com isso de Art Nouveau e me inspiram pra caramba, mas achei que o post já tava gigante o suficiente. Mas como eu lembrei o estilista que estava pensando, acho que posso falar um pouquinho dele. Não dele propriamente dito, mas dele a ver com o tema da postagem que sou eu desenhando haha.
Pois bem, se a gente pegar de novo os trabalhos do Mucha e dar uma olhada na vestimenta e daí comparar com as roupas que, er, bem, eu desenho, dá pra ver que uma coisa que eu não manho é de dobras e representação de tecidos. Principalmente de desenhar roupas inusitadas ou com essa pegada de roupas gregas e romanas.
Um dia estava por aí e nem me lembro como mas me deparei com alguma roupa de Zuhair Murad. Creio que foi algo a ver com tapetes vermelhos e artistas usando, e as rendas e tecidos me encantaram... muito.
No caso, o que me chamou a atenção foi a maneira como ele relaciona o corpo com a roupa, ela não cobre o corpo, mas o adorna. Literalmente isso, diferente de uma camiseta, mesmo uma camiseta bonitinha, ou que traga um decote. Nas roupas, há uma conversa entre o tecido e a pele, como cor, textura, forma.
E a forma como ele faz a sobreposição de tecidos e os padrões florais são um belo estudo para mesclar exatamente com os modelos que Mucha desenha. Sim, as ideias são bem diferentes, até porque as roupas que eu peguei pra olhar de Murad são modelos de gala, noturnos e tem uma pegada de glamour e não de natureza.
Outra artista que eu amo é Vivienne Westwood.
Esse aqui foi do último desfile que teve, SEMELE WALK. Ou é o que diz no meu facebook.
Poxa, nem tenho muito o quez falar delas, senão falar de como eu sofro pra ter ideias de roupas e para fazer os drapeados e curvas e texturas. Mas daí o trabalho dela combina mais com as ideias bizarras e cyberpunks que eu tenho.
E foi por isso que eu tirei o marcador moda, porque eu não tenho muito o que falar.
Além de drapeados e amassados e rendas, outra coisa que tenho muita dificuldade para fazer são pelos. Podem ser pompons, animais, cabelos. Pelos e penas, não consigo dar a leveza ou o peso deles, minha textura falha miseravelmente. E existem muitos tutoriais por aí, mas eu nunca chego onde quero. O ideal seria eu mesma desenvolver minha maneira de representá-los, mas enquanto isso, vou só mimetizando o que os outros tem a me ensinar...
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| Por bamuth no deviantArt |
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| Por Kxhara no deviantArt |
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| por moni158 também no deviantArt |
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| E por NaRai , adivinha aonde, no deviantArt.com |
Ah, sabia que Mucha também desenhou jóias e utensilhos, como abajures? as peças seguem exatamente a mesma linha de suas pinturas, trazem temas naturais, detalhadas, simétricas. O que dizer, o cara manjava das coisas.
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| Colocando um monte de imagens pra compensar o monte de texto. Ah, são designs do Mucha esses daqui. |
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| E aqui uma jóia pronta, desenhada por Mucha. |
Acho que falei o que queria e inclusive o que não queria, o que deixa essa postagem com qualidade duvidosa. Espero que vocês gostem, eu espero por comentários.
Até uma outra vez.
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*nome chique para desenhos bem acabados. Porque supostamente ilustrações são desenhos com funções, ou que tenham um contexto por trás, uma peça publicitária é uma ilustração, um rabisco de canto de página com legenda pode ser uma ilustração, um desenho numa folha sem significado ou contexto, talvez não seja uma ilustração. Ah! Dificuldades em entender esses conceitos.























